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domingo, 9 de janeiro de 2011

INDICAÇÃO DO DVD "UMA NOITE EM 67", DE RENATO TERRA E RICARDO CALIL

UMA NOITE EM 67 é o documentário dirigido por Renato Terra e  Ricardo Calil,  sobre a finalíssima daquele que talvez tenha sido o mais emblemático dos festivais realizados na televisão brasileira. O filme tem como mérito apresentar de forma temática, o registro histórico (que acertadamente diz que o festival "mudou os rumos da MPB), além da reunião de depoimentos de músicos, jornalistas e produtores ligados ao evento. Algumas das  características fundamentais que marcam a montagem do documentário são:

A concepção "épica" do espetáculo: Paulinho Machado de Carvalho, diretor da TV Record declarou: "Eu sempre achei que os festivais  poderiam ser organizados como espetáculos de de luta livre (...) Tem que ter o mocinho, tem que ter o bandido, tem que ter o pai da moça (...) tem que ter tudo! (...) A filosofia na minha cabeça, era mais ou menos assim: organizar um espetáculo e selecionar os interpretes, mais ou menos dentro disso (...) organizar o espetáculo para que ele (...) despertasse maior interesse do público, certo." O constrangimento de Chico Buarque, ao descobrir que era  considerado o "mocinho bonitinho", é impagável.

A vaia como "protagonista": Segundo o jornalista Chico de Assis, "este foi o festival onde a vaia chegou ao mais profundo da resposta." Grupos de pessoas, predominantemente jovens, organizavam-se para vaiar artistas e canções. A vítima, convertida em "vilão", pelo público,  foi o cantor e compositor Sérgio Ricardo, que já na proposta de um novo arranjo para a canção Beto bom de bola, é achincalhado. Irônico e diante das ameaças de abandonar o palco, canta sem concluir sua música: explode em ira, destrói o violão, atirando-o no público.

A marcha contra a guitarra: Em 17 de Julho de 1967, em plena ditadura, artistas, jornalistas e afins, organizaram uma passeata contra o uso da guitarra elétrica na música brasileira. Gilberto Gil (que participou do ato, convidado por Elis Regina) minimiza o movimento como uma "competição sadia".  Caetano Veloso e Nara Leão, revoltados, achavam a marcha fascista. Caetano foi para o palco  logo depois, dobrando absolutamente o público reticente, ao lado da banda de rock Beat Boys formada por integrantes argentinos. Gil usou os jovens roqueiros dos Mutantes, em sua apresentação. Eis a Tropicália que chegava...

Nasce a Tropicália: Três anos após o inicio da ditadura militar (1964) e menos de um ano antes do golpe violento do AI-5, restringindo totalmente a expressão e a criação artística, o evento ficou marcado fundamentalmente pelo "parto" da Tropicália, tendo como gestantes Caetano Veloso, finalista com Alegria, Alegria e Gilberto Gil, finalista com Domingo no Parque (junto dos Mutantes) ,que em suas falas nas entrevistas, atribuem um ao outro a "paternidade" (ou maternidade) do movimento.

Vale uma atenção maior, observar que diante da magnitude de tantos fatos, a belíssima canção Ponteio, com Edu Lobo e Marília Medalha, que venceu o festival (abrindo e fechando o filme), passa a ser "um grandioso detalhe", dentro de todo o contexto. Além disso, as falas de Chico Buarque sobre o sentimento de "isolamento e envelhecimento" diante da inovação do tropicalismo de Caetano e Gil, são imprescindíveis para entender-se o contexto em que estes caminharam com suas carreiras.

Nos extras é possível conferir Elis Regina (premiada como melhor intérprete, na ocasião), ainda que lamentavelmente fique resumida a um desentendimento com Nara Leão e certo "desgosto" de Dory Caymmi, pela interpretação "emotiva" que ela deu a sua canção O Cantador (em parceria com Nelson Motta). São mostradas também, outras canções e interpretes como Nana Caymmi (Bom dia), Jair Rodrigues (Samba de Maria),  MPB4 (Gabriela), Sidney Miller e Nara Leão (A estrada e o violeiro). Destaco ainda a entrevista curtinha de  Johnny Alf, falecido recentemente, que não entrou na edição final mas também pode ser visto nos extras do DVD, juntamente com uma série de "causos", envolvendo artistas, jurados e o público. Imperdível!


Trailer:
           
Uma Noite em 67 - Trailer Oficial por umanoiteem67 no Videolog.tv.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

THE DOORS - COM QUASE UMA DÉCADA DE ATRASO, O FILME É LANÇADO EM DVD (08/08/2009)

Em 2009, após dezoito anos do lançamento do filme nos cinemas, The Doors, de Oliver Stone é lançado em DVD, pela Sony Pictures. O box conteinha dois discos: o primeiro com o filme que apresenta versões de áudio e legendas em português (aleluia!) e o segundo com extras de produção, cenas excluídas, locações e depoimentos, todos estes relacionando o casting com a própria trajetória da banda. Surpreendente é ver no verso da capa do dvd, um selo da APCM (Associação Anti-Pirataria Cinema e Música), ao lado da indicação “não recomendado para menores de 18 anos... contém: conflitos psicológicos, violência, sexo e consumo de drogas”. Deixando a questão da censura para outro momento, The Doors – O Filme é um dos casos clássicos em que os responsáveis pelos direitos do filme “clamaram” pela pirataria. Levando-se em conta o papel do longa em seu período de lançamento, seu sucesso junto ao público, impulsionado pelo forte apelo comercial da indústria fonográfica que “re-descobria” o rock, levar quase uma década para tal lançamento foi, no mínimo, burrice! O filme foi interminavelmente copiado em VHS, DVD e digital! Algo óbvio, uma vez que o fã de cinema e rock certamente desejará tê-lo na estante, tamanha sua importância. O duro é saber que só foi permitido o lançamento agora, em vésperas da transição do atual formato para a tecnologia blue-ray (que já dispunha do título, bem antes). Brasileirices.

O “SOLDADO CONHECIDO”: OLIVER STONE

Todas as vezes que você souber do lançamento de um filme do cineasta Oliver Stone, jamais deixe de observar o contexto de acontecimentos históricos, pelo menos nos cinco anos anteriores a sua estreia. Quando tomou as telas em 1991, o filme The Doors tinha como pano de fundo principal, no contexto norte-americano, a Guerra do Golfo e, no panorama mundial, os “cacos” do Muro de Berlim. Eternamente contrário ao “sonho republicano” dos grandes mandatários da política do Tio Sam (indústrias armamentista e petrolífera – ambas necessárias para se fazer guerras), Stone recuperou sua memória atormentada de ex-soldado no Vietnã (já explicitada por ele de forma impressionante em Platoon, de 1986 e Nascido em 4 de Julho, de 1989), quando em meio às alucinações de dor e terror, se entregava ao delírio e sensualidade da poesia de Jim Morrison. Portanto não havia um período mais indicado para a efetivação de uma obra cinematográfica que retratasse toda a rebeldia embalada pelo bom e velho rock, do que aquela que unia no “Rei Lagarto”, a síntese da loucura psicodélica, libertação sexual e pluralidade de crenças dos anos 60. Mas, não foi somente isso...

Stone, quarto da esquerda para direita: ex-soldado no Vietnã e cinema 100% contextualizado
A INDÚSTRIA FONOGRÁFICA: SEMPRE ELA!

Com as bandas de Seattle, metendo os pés na mídia dos anos 90, dominada pela música pop, um filão de bandas chamadas “antigas” voltaram a dar o ar de sua graça[1]. No respiro que o rock conseguiu dar neste contexto (e desde os anos 50 sempre foi assim!), fosse com pseudo-punks, hard-farofa, old-new-ages ou dinossauros jurássicos, novamente passou a ocupar seu lugar nas alturas. O período marcava a transição dos LP’s (ainda amados por muitos), para os CD’s (cuja promessa de durabilidade nos enganou a todos!). Com o sucesso do filme “biográfico” (Stone não aceita essa ideia) de Jim Morrison e banda, a indústria fonográfica (sempre ela!) arregalou os olhos e durante pelo menos cinco anos consecutivos, lançou incontáveis títulos, fossem estes da discografia original ou ao vivo, não somente do The Doors, mas de todos os ícones do rock dos anos 60 e 70: The Beatles, Rolling Stones, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Led Zeppelin (apenas para citar alguns). Dos porões das gravadoras, surgiram centenas e milhares de gravações “inéditas”, conversas entre músicos, vídeos, fotos perdidas, textos manuscritos, etc, que rechearam os encartes de disquinhos prateados no decorrer dos próximos 15 anos.

OS ANOS 90, CONSTRÓEM SEU “MITO”. E DEPOIS?

Tendo seu fôlego retomado, o rock requisitou aquilo que tanto fez na sua trajetória sexagenária: construir mitos. Mais importante do que as bandas que retomaram suas atividades e fizeram shows pelo mundo, o marco da década foi o suicídio de Kurt Cobain que, aos 27, encontrou a morte, objeto de tanto fetiche do “xamã” Jim Morrison. Depois disso, nada mais foi igual no rock. Nem mesmo o atual revival dos anos 90, com bandas retornando a ativa e fazendo shows, tem empolgado. A geração dos “2000” não foi capaz de se quer produzir um mito, uma vez que Amy Winehouse, pouco conseguiu "fazer" após sua morte. Assim, é possível entender às tantas e infindáveis manifestações a Michael Jackson, na sua recente partida. Começo a imaginar que as gerações vão derrapando pela sua incapacidade de gerar mitos (Jung explica!), característica essa que marcou o cheiro da juventude pelos tempos. This is the end?

Trailer: http://video.br.msn.com/watch/video/kurt-cobain-o-diario-de-uma-ausencia/d3fiw1j0

[1] Este tema está mais detalhado aqui neste blog em dois textos:
O TEMPLO DOS CÃES - APÓS QUASE 20 ANOS DA SUA EXPLOSÃO, O GRUNGE ESTÁ SEPULTADO EM SEU ''ANTI-MOVIMENTO''
http://sonoropanegirico.ning.com/profiles/blogs/o-templo-dos-caes-apos-quase
TEMPLO DOS CÃES II: VENDILHÕES
http://sonoropanegirico.ning.com/profiles/blogs/templo-dos-caes-ii-vendilhoes

Para saber mais:

Filme recente sobre Kurt Coubain - Retrato de uma Ausência (2007):
http://cinema.uol.com.br/ultnot/multi/2009/07/30/0402386CDCC18346.jhtm?trailer-do-filme-kurt-cobain--retrato-de-uma-ausencia-0402386CDCC18346 
 

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