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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

HQ publicada nos anos 90 foi inspirada em música do The Doors


No ano de 1999, o primeiro número da minisérie The Sandman Presents: Love Street foi lançado nos EUA. Inspirada em uma música de mesmo nome, gravada pela banda The Doors, como a segunda faixa álbum Waiting for the Sun (1967), o autor Peter Hogan buscou em sua adolescência a ambientação ideal para imaginar como teria sido conviver nos anos de rebeldia, com uma lenda das HQ’s: John Constantine, um manipulador de forças sobrenaturais entre o céu e o inferno, criado pelos geniais Alan Moore, Steve Bissette e Totleben John, do selo Vertigo, braço da DC Comics. Usando como fundo a atmosfera da paz e amor, que adornava a mentalidade dos jovens que propunham uma transformação do mundo nos idos anos 60, sob a influência da Era de Aquário, tendo os hippies como mestres de cerimônias e mediadores dos conhecimentos ocultos, Hogan procura não somente usar Constantine como uma peça do seu  “alter ego” em uma história sobrenatural, mas posicionar-se criticamente sobre sua geração. Em texto publicado originalmente na seção On the Ledge da revista (que na edição brasileira de 2002, apareceu na contracapa do volume um), escreveu:

“Em 1968, eu era muito parecido com a versão adolescente de John Constantine (...) Como ele eu fingia ser alguns anos mais velho, para poder trabalhar na imprensa clandestina e fumar maconha nos quartos de Notting Hill, com meus amigos hippies de vinte e tantos anos – o equivalente a fugir de casa  para se juntar a um circo.Eu vi bandas importantes de graça no Hyde Park, aprendi a andar descalço em qualquer lugar (...), e fiz várias coisas idiotas. Felizmente, o mundo era mais inocente na época (...) E é claro, a diversão não durou. “Eu odiei o que os hippies se tornaram,” Constantine comenta em Love Street, e eu concordo – o começo dos anos setenta foi realmente perigoso, o clichê hippie que as pessoas lembram. Mas eu adorava como eles começaram, e de uma certa forma, eu ainda gosto. Questionaram e arriscaram, criaram livros estranhos, trazendo muito barulho e cor para o mundo; entrar no jogo gargalhando sem medo de passar por idiota enquanto buscavam a sabedoria. Resumindo, eram todos os bons motivos para ser adolescente (...)“Por outro lado, como a maioria dos adolescentes eram um pouco bagunceiros. Verdade seja dita, havia várias boas atitudes sociais e conceitos filosóficos (além das roupas) que agora admitimos que foram testados pela primeira vez na época, e não há como negar que era um processo interessante, mas também era altamente tapado e carecia de qualquer tipo de senso discriminatório. Eu odeio falar mal dos mortos, mas Timothy Leary era um idiota perigoso – embora na época, ele geralmente gozava de do mesmo respeito que Buda. E não deixe ninguém lhe enganar dizendo que os anos sessenta eram anos dourados. Eles foram, na realidade muito sombrios, um tempo cinzento, onde todos aqueles grandes discos e programas de TV que as pessoas lembram vieram bem lentamente, na verdade em doses pequenas, e brilharam como diamantes em meio a tanta lama. Você pode ir comprar o melhor agora – apenas agradeça por não precisar escutar o resto, ou tenha que lidar com aquele mundo”.

A história se passa em dois momentos: no presente (1999), quando uma amiga sua e de John Constantine encontra-se em estado terminal em um hospital. Com o desenrolar dos fatos, a ação volta para o ano de 1968, quando um grupo de amigos que vive do ideário hippie concentra-se em uma festa promovida por um guru espiritual. Acidentalmente, após manusear e repetir algumas frases de um livro mágico, um deles liberta uma entidade que toma o corpo de uma jovem (a mesma que no futuro está morrendo). A reunião dos amigos no presente, que estavam no evento passado, é a única alternativa de libertar a alma da amiga para descansar em paz. A confluência com os Perpétuos (personagens do universo Sandman) acontece neste momento, pois por alguma razão, Lorde Morpheus, o mestre dos sonhos está desaparecido à quase 50 anos (que numa conta rápida equivaleria ao período da das duas grandes guerras mundiais e explosão da sociedade de consumo), e seus companheiros do além estão em busca de alguma forma de trazê-lo de volta.  Ao recorrer ao encontro de amigos para rememorar o passado e, juntos lutarem pela liberdade da alma de outro amiga Peter Hogan recorre não somente a nostalgia pela memória das vivências, mas ao que verdadeiramente reconhece como aquilo que ficou de todas as experiências. E não obstante, a música, como neste caso, é o veículo de viagem no tempo, criação e reconstrução de sentimentos:

“Love Street não é apenas sobre 1968. É ambientado também em 1999, e é como as histórias acabam. Sobre amizades que voltam a brilhar após décadas de separação, sobre ser honesto com você mesmo e mãos ideais de sua juventude conforme você cresce. Será que eu ainda acredito que o amor é tudo que eu preciso? Resposta não. Mas eu acredito que é tudo que realmente importa.”

Referência: Sandman Apresenta "Hellblazer - Love Street", de Peter Hogan, Michael Zulli e Vince Locke. Editora Brain Store. 2002.

sábado, 22 de dezembro de 2012

1996: HQ “Preacher” apresenta personagem inspirado na morte de Kurt Cobain


Nos anos 90, inúmeros quadrinhos tomaram o mercado, com fôlego diferenciado. Trazendo principalmente por parte dos autores, novas formas de olhar e estética que saiam do arquétipo do herói (comum e responsável por anos a fio pelo sucesso e retorno), o momento apresentava uma profunda observação dos personagens enquanto indivíduos, providos não somente de virtudes (típico ideal apolíneo, que norteia a mente dos criadores, sobretudo dos Super-heróis tradicionais), mas de entendimento de que os seres são compostos também da violência, amoralidade e falta de ética. Assim, sem perder os efeitos da humanidade em sua plenitude boa e má, nomes como Garth Ennis, despontaram para o mundo. Juntamente com o desenhista Steve Dillon, Ennis criou a antológica série de quadrinhos chamada Preacher, publicada pelo selo Vertigo da DC Comics. Com uma história que envolve um pastor possuído por forças sobrenaturais, sua ex-namorada e um excêntrico vampiro irlandês que fogem da polícia, de assassinos seriais, de organizações secretas e de um pistoleiro que ressurgiu do século XIX, é absolutamente impossível esperar pelo convencional. No entanto, algo interessante durante a publicação da série foi à criação de pequenos eventos paralelos dentro da trama, sobretudo os que envolviam personagens que surgiram durante o processo. Um deles, relacionado diretamente com uma ocasião da época: a morte de Kurt Cobain, líder do Nirvana.

Publicado originalmente nos EUA em dezembro de 1996 (e no Brasil somente em 1999), um ano e meio após a morte de Cobain, com o insinuante título “The Story of you-know-who” (A história de você-sabe-quem), a edição especial de Preacher trazia a tona a origem de um personagem anti-herói que se chamava “Cara de Cu”, incidente em algumas passagens da série. O vilipendioso nome se dava por conta de um rosto absolutamente deformado cuja aparência remetia a titulação do anti-herói. Este é o jovem Root, apelidado também como “Fodinha”, que se masturba frequentemente e vive com a mãe alcoólatra e dependente de remédios, e o pai, um xerife violento, racista e também alcoólatra, que o espanca frequentemente por ele não ser “normal” como os colegas que jogam futebol e vão estudar em colégios de renome. Na escola, sofre bullying, principalmente por parte dos fortões que são reprimidos por seu pai, ao serem pegos usando coisas ilícitas pela cidade, além de ser tratado como idiota pelas garotas e pelos professores. Sobrou-lhe Pube, seu melhor e tosco amigo, com quem divide o consumo de drogas e é responsável por ter lhe apresentado o Nirvana. Com a notícia da morte de Kurt e após tomar uma surra dos fortões da escola, Pube convence Root a roubar o rifle do pai mais uma vez (já havia feito antes apenas para acabar com o cachorro do vizinho), a fim de que pudessem dar cabo das próprias vidas. Pube se suicida colocando a arma na boca e Root, diante da situação se vê obrigado a fazê-lo também. Sem sucesso, pois colocou a arma o queixo e não na boca, o resultado foi uma deformação total em seu rosto, conferindo-lhe uma aparência bizarra. Nestas condições, sua participação na saga criada por Garth Ennis estava mais do que garantida. Acredita-se que para a criação do personagem, o autor tenha se inspirado na famosa história de dois jovens norte-americanos que combinaram suicidar-se após ouvir a música “Better by you, better by me”, do Judas Priest, nos anos 80. O caso gerou grande repercussão exatamente pelo fato de um dos jovens ter sobrevivido e ficado deformado ao não conseguir seu objetivo. As famílias processaram a banda liderada por Rob Halford, que acabou inocentada ao final. Sinistro!

Para saber mais:

O caso Judas Priest:

Preacher:

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

ROCK RARO: COLECIONADOR BRASILEIRO LANÇA LIVRO SOBRE DISCOS

Press-Release postado por Lester Benga em 20/12/10

Colecionadores e fanáticos por Rock acabam de ganhar uma ótima obra de referência para pesquisarem sobre raridades. Se trata do  livro "Rock Raro: o maravilhoso e desconhecido mundo do Rock". Escrito pelo colecionador e pesquisador Wagner Xavier (http://www.screamyell.com.br/secoes/rockraro.html), o título traz resenhas e fotos de 352 discos raros, todos de bandas diferentes.
A obra foi produzida em colaboração com o também colecionador João Carlos Roberto, e está sendo publicada pela editora carioca Livre Expressão. Custando R$ 70, é o primeiro livro do gênero produzido no Brasil. Focando a melhor safra do Rock (entre 1966 e 1979), são apresentados textos sobre grupos como Jericho Jones, 2066 & Then, Fuzzy Duck, Fanny Adams, Alamo, Witch, Bonalim e muitos outros, dos mais variados países. Bandas de praticamente todos os estilos praticados na época em questão estão presentes nas páginas: hard rock, progressivo, psicodelia, folk e blues rock. Completando, o autor ainda atribuiu uma nota para cada álbum, variando entre “bom”, “muito bom”, “excelente”, sendo que os 10 melhores são classificados como “diamante”.

O livro pode ser adquirido pelo correio. Basta enviar um e-mail diretamente ao autor: wagner2505@yahoo.com.br.

domingo, 9 de janeiro de 2011

INDICAÇÃO DO DVD "UMA NOITE EM 67", DE RENATO TERRA E RICARDO CALIL

UMA NOITE EM 67 é o documentário dirigido por Renato Terra e  Ricardo Calil,  sobre a finalíssima daquele que talvez tenha sido o mais emblemático dos festivais realizados na televisão brasileira. O filme tem como mérito apresentar de forma temática, o registro histórico (que acertadamente diz que o festival "mudou os rumos da MPB), além da reunião de depoimentos de músicos, jornalistas e produtores ligados ao evento. Algumas das  características fundamentais que marcam a montagem do documentário são:

A concepção "épica" do espetáculo: Paulinho Machado de Carvalho, diretor da TV Record declarou: "Eu sempre achei que os festivais  poderiam ser organizados como espetáculos de de luta livre (...) Tem que ter o mocinho, tem que ter o bandido, tem que ter o pai da moça (...) tem que ter tudo! (...) A filosofia na minha cabeça, era mais ou menos assim: organizar um espetáculo e selecionar os interpretes, mais ou menos dentro disso (...) organizar o espetáculo para que ele (...) despertasse maior interesse do público, certo." O constrangimento de Chico Buarque, ao descobrir que era  considerado o "mocinho bonitinho", é impagável.

A vaia como "protagonista": Segundo o jornalista Chico de Assis, "este foi o festival onde a vaia chegou ao mais profundo da resposta." Grupos de pessoas, predominantemente jovens, organizavam-se para vaiar artistas e canções. A vítima, convertida em "vilão", pelo público,  foi o cantor e compositor Sérgio Ricardo, que já na proposta de um novo arranjo para a canção Beto bom de bola, é achincalhado. Irônico e diante das ameaças de abandonar o palco, canta sem concluir sua música: explode em ira, destrói o violão, atirando-o no público.

A marcha contra a guitarra: Em 17 de Julho de 1967, em plena ditadura, artistas, jornalistas e afins, organizaram uma passeata contra o uso da guitarra elétrica na música brasileira. Gilberto Gil (que participou do ato, convidado por Elis Regina) minimiza o movimento como uma "competição sadia".  Caetano Veloso e Nara Leão, revoltados, achavam a marcha fascista. Caetano foi para o palco  logo depois, dobrando absolutamente o público reticente, ao lado da banda de rock Beat Boys formada por integrantes argentinos. Gil usou os jovens roqueiros dos Mutantes, em sua apresentação. Eis a Tropicália que chegava...

Nasce a Tropicália: Três anos após o inicio da ditadura militar (1964) e menos de um ano antes do golpe violento do AI-5, restringindo totalmente a expressão e a criação artística, o evento ficou marcado fundamentalmente pelo "parto" da Tropicália, tendo como gestantes Caetano Veloso, finalista com Alegria, Alegria e Gilberto Gil, finalista com Domingo no Parque (junto dos Mutantes) ,que em suas falas nas entrevistas, atribuem um ao outro a "paternidade" (ou maternidade) do movimento.

Vale uma atenção maior, observar que diante da magnitude de tantos fatos, a belíssima canção Ponteio, com Edu Lobo e Marília Medalha, que venceu o festival (abrindo e fechando o filme), passa a ser "um grandioso detalhe", dentro de todo o contexto. Além disso, as falas de Chico Buarque sobre o sentimento de "isolamento e envelhecimento" diante da inovação do tropicalismo de Caetano e Gil, são imprescindíveis para entender-se o contexto em que estes caminharam com suas carreiras.

Nos extras é possível conferir Elis Regina (premiada como melhor intérprete, na ocasião), ainda que lamentavelmente fique resumida a um desentendimento com Nara Leão e certo "desgosto" de Dory Caymmi, pela interpretação "emotiva" que ela deu a sua canção O Cantador (em parceria com Nelson Motta). São mostradas também, outras canções e interpretes como Nana Caymmi (Bom dia), Jair Rodrigues (Samba de Maria),  MPB4 (Gabriela), Sidney Miller e Nara Leão (A estrada e o violeiro). Destaco ainda a entrevista curtinha de  Johnny Alf, falecido recentemente, que não entrou na edição final mas também pode ser visto nos extras do DVD, juntamente com uma série de "causos", envolvendo artistas, jurados e o público. Imperdível!


Trailer:
           
Uma Noite em 67 - Trailer Oficial por umanoiteem67 no Videolog.tv.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

THE DOORS - COM QUASE UMA DÉCADA DE ATRASO, O FILME É LANÇADO EM DVD (08/08/2009)

Em 2009, após dezoito anos do lançamento do filme nos cinemas, The Doors, de Oliver Stone é lançado em DVD, pela Sony Pictures. O box conteinha dois discos: o primeiro com o filme que apresenta versões de áudio e legendas em português (aleluia!) e o segundo com extras de produção, cenas excluídas, locações e depoimentos, todos estes relacionando o casting com a própria trajetória da banda. Surpreendente é ver no verso da capa do dvd, um selo da APCM (Associação Anti-Pirataria Cinema e Música), ao lado da indicação “não recomendado para menores de 18 anos... contém: conflitos psicológicos, violência, sexo e consumo de drogas”. Deixando a questão da censura para outro momento, The Doors – O Filme é um dos casos clássicos em que os responsáveis pelos direitos do filme “clamaram” pela pirataria. Levando-se em conta o papel do longa em seu período de lançamento, seu sucesso junto ao público, impulsionado pelo forte apelo comercial da indústria fonográfica que “re-descobria” o rock, levar quase uma década para tal lançamento foi, no mínimo, burrice! O filme foi interminavelmente copiado em VHS, DVD e digital! Algo óbvio, uma vez que o fã de cinema e rock certamente desejará tê-lo na estante, tamanha sua importância. O duro é saber que só foi permitido o lançamento agora, em vésperas da transição do atual formato para a tecnologia blue-ray (que já dispunha do título, bem antes). Brasileirices.

O “SOLDADO CONHECIDO”: OLIVER STONE

Todas as vezes que você souber do lançamento de um filme do cineasta Oliver Stone, jamais deixe de observar o contexto de acontecimentos históricos, pelo menos nos cinco anos anteriores a sua estreia. Quando tomou as telas em 1991, o filme The Doors tinha como pano de fundo principal, no contexto norte-americano, a Guerra do Golfo e, no panorama mundial, os “cacos” do Muro de Berlim. Eternamente contrário ao “sonho republicano” dos grandes mandatários da política do Tio Sam (indústrias armamentista e petrolífera – ambas necessárias para se fazer guerras), Stone recuperou sua memória atormentada de ex-soldado no Vietnã (já explicitada por ele de forma impressionante em Platoon, de 1986 e Nascido em 4 de Julho, de 1989), quando em meio às alucinações de dor e terror, se entregava ao delírio e sensualidade da poesia de Jim Morrison. Portanto não havia um período mais indicado para a efetivação de uma obra cinematográfica que retratasse toda a rebeldia embalada pelo bom e velho rock, do que aquela que unia no “Rei Lagarto”, a síntese da loucura psicodélica, libertação sexual e pluralidade de crenças dos anos 60. Mas, não foi somente isso...

Stone, quarto da esquerda para direita: ex-soldado no Vietnã e cinema 100% contextualizado
A INDÚSTRIA FONOGRÁFICA: SEMPRE ELA!

Com as bandas de Seattle, metendo os pés na mídia dos anos 90, dominada pela música pop, um filão de bandas chamadas “antigas” voltaram a dar o ar de sua graça[1]. No respiro que o rock conseguiu dar neste contexto (e desde os anos 50 sempre foi assim!), fosse com pseudo-punks, hard-farofa, old-new-ages ou dinossauros jurássicos, novamente passou a ocupar seu lugar nas alturas. O período marcava a transição dos LP’s (ainda amados por muitos), para os CD’s (cuja promessa de durabilidade nos enganou a todos!). Com o sucesso do filme “biográfico” (Stone não aceita essa ideia) de Jim Morrison e banda, a indústria fonográfica (sempre ela!) arregalou os olhos e durante pelo menos cinco anos consecutivos, lançou incontáveis títulos, fossem estes da discografia original ou ao vivo, não somente do The Doors, mas de todos os ícones do rock dos anos 60 e 70: The Beatles, Rolling Stones, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Led Zeppelin (apenas para citar alguns). Dos porões das gravadoras, surgiram centenas e milhares de gravações “inéditas”, conversas entre músicos, vídeos, fotos perdidas, textos manuscritos, etc, que rechearam os encartes de disquinhos prateados no decorrer dos próximos 15 anos.

OS ANOS 90, CONSTRÓEM SEU “MITO”. E DEPOIS?

Tendo seu fôlego retomado, o rock requisitou aquilo que tanto fez na sua trajetória sexagenária: construir mitos. Mais importante do que as bandas que retomaram suas atividades e fizeram shows pelo mundo, o marco da década foi o suicídio de Kurt Cobain que, aos 27, encontrou a morte, objeto de tanto fetiche do “xamã” Jim Morrison. Depois disso, nada mais foi igual no rock. Nem mesmo o atual revival dos anos 90, com bandas retornando a ativa e fazendo shows, tem empolgado. A geração dos “2000” não foi capaz de se quer produzir um mito, uma vez que Amy Winehouse, pouco conseguiu "fazer" após sua morte. Assim, é possível entender às tantas e infindáveis manifestações a Michael Jackson, na sua recente partida. Começo a imaginar que as gerações vão derrapando pela sua incapacidade de gerar mitos (Jung explica!), característica essa que marcou o cheiro da juventude pelos tempos. This is the end?

Trailer: http://video.br.msn.com/watch/video/kurt-cobain-o-diario-de-uma-ausencia/d3fiw1j0

[1] Este tema está mais detalhado aqui neste blog em dois textos:
O TEMPLO DOS CÃES - APÓS QUASE 20 ANOS DA SUA EXPLOSÃO, O GRUNGE ESTÁ SEPULTADO EM SEU ''ANTI-MOVIMENTO''
http://sonoropanegirico.ning.com/profiles/blogs/o-templo-dos-caes-apos-quase
TEMPLO DOS CÃES II: VENDILHÕES
http://sonoropanegirico.ning.com/profiles/blogs/templo-dos-caes-ii-vendilhoes

Para saber mais:

Filme recente sobre Kurt Coubain - Retrato de uma Ausência (2007):
http://cinema.uol.com.br/ultnot/multi/2009/07/30/0402386CDCC18346.jhtm?trailer-do-filme-kurt-cobain--retrato-de-uma-ausencia-0402386CDCC18346 
 

quinta-feira, 29 de julho de 2010

O TEMPLO DOS CÃES - APÓS QUASE 20 ANOS DA SUA EXPLOSÃO, O GRUNGE ESTÁ SEPULTADO EM SEU ''ANTIMOVIMENTO'' (21/03/2010)

Nirvana: a "chave" do chamado GRUNGE

TUDO É "ROCK" NOS ANOS 80


Boa parte das bandas de rock, remanescentes dos anos 60 e 70, se apresentavam na década de 80 como “colcha de retalhos” ou como “heróis da resistência” daquilo que produziram em seu tempo. Procuravam empurrar com a barriga seu legado para um contexto em que a mídia misturava inúmeras vertentes musicais no mesmo balaio, chamando a tudo de Rock. A música pop, tão evidenciada nesta década, tomava espaço ao lado do new wave, hard rock, heavy metal, punk, rock progressivo, etc, sobretudo nas publicações periódicas especializadas (como é o caso da revista Bizz, no Brasil) e na MTV que começava a se espalhar para o mundo como “aglutinadora de estilos musicais”. E nesta “salada” que a indústria do entretenimento colocava a mesa, surgiam personagens que ocupavam seus espaços no mercado, passando desapercebidos por uns, enquanto idolatrados por outros. O vazio então se preenche com o que se apresenta de opção: Michael Jackson, recordista absoluto de vendagem de discos na década, permanece no top musical, e a febre das “boy bands”, reconfigurada para substituindo os exóticos meninos latinos do Menudo, por jovens caucasianos americanos do New Kids on The Block (imitados por uma dúzia de grupos congêneres), com melhor penetração no mercado europeu. E a década 90 é iniciada com ambos, Michael Jackson e New Kids, no topo da parada de sucessos, em quase todo o mundo, seguidos pela megalomania do Guns'n Roses e as "new glitters" Poison, Skid Row, Motley Crue, dentre outras.


O MAPA DA CONSTRUÇÃO DE UMA CENA MUSICAL


O mundo passava por mudanças significativas na década de 80, tendo na quebra da URSS talvez, sua mais importante situação. A idéia de uma “dualidade” na configuração mundial, sobretudo a proposta de um ideário esquerdista, contaminava não somente os corações politizados, mas alimentava o que se pode chamar propensão “outsider” de indivíduos ou grupos. No Brasil, Cazuza sintetizou bem o “vazio” ideológico global que se estabelecia com a “vitória” do capitalismo, quando cantou “o meu partido é um coração partido” ou “ideologia... eu quero uma pra viver”. Não havendo mais um “norte subversivo” pairando sob os campos tradicionais sociais da estrutura capital, as mentes irriquietas abraçaram a angústia e já não chorava seus “heróis” que “morreram de overdose”. Parecia nada ter sobrado. Mas Jimi Hendrix não poderia passar desapercebido como lenda, sobretudo para a juventude da cidade onde nasceu: Seattle. A maior cidade do Estado de Washington, está localizada geograficamente na costa do Oceano Pacífico, na divisa com o Canadá, vive basicamente da indústria de tecnologia e do turismo em parques nacionais com suas cadeias montanhosas. Do ponto de vista do cultural, viveu grande movimentação com a chamada Exposição Mundial, ocorrida no ano de 1962. Desde então, a escassez de eventos culturais de grande porte se arraigou, tendo nas chuvas incidentes na média de 200 dias por ano, uma das responsáveis pela falta de interesse na região. A solução para jovens entediados descendentes das classes médias baixas e mais pobres da sociedade, com mínimas opções de diversão era formar bandas de rock, tocar em suas garagens e, quando possível, nos clubes da cidade, para espremidos espectadores sedentos por “alguma coisa”. A situação exigia um estilo musical simples que pudesse expor toda a revolta contra si mesmo e contra a sociedade. Eis então a adoção do punk-rock, que atendia a estes “desinteresses”. Isso “cheirava a espírito juvenil”.


GRUNGE: UM NOME DA MODA E DO "MOVIMENTO”




Do momento em que o Nirvana entrou num estúdio para gravar seu segundo álbum, Nevermind, em 1991, nada mais foi igual por aquelas bandas dos EUA e pelo mundo. Logo a indústria fonográfica direcionou suas atenções para Seattle, causando um grande movimento migratório de bandas que nesta conjuntura, buscavam o estrelato. No entanto, os produtores deste estilo musical, como o lendário Jack Endino, estavam bem antenados com o contexto geral do nascimento das bandas de Seattle, sendo ele oriundo deste meio. Sendo assim, notaram que a abertura de leque quanto as vertentes musicais era fundamental para a expansão do “movimento”, seguindo basicamente três linhas diferentes, aproveitando a configuração das bandas locais: o punk-rock, tendo como maior expoente o Nirvana; o hard rock, mais aproximado ao Pearl Jam; e o Heavy Metal, encabeçado por Soundgardem e o Alice in Chains. Evidentemente que os hábitos e vestimentas que adornaram esta ebulição, além dos cabelos longos e largados, comportava camisão quadriculado de mangas compridas (usado por lenhadores da fronteira com o Canadá) e os bermudões do surfista Eddie Vedder, foram aderidos pela indústria da moda que, ali, abriu seu nicho do que chamou “Moda Grunge”. Apoiado no lançamento de cada uma das bandas citadas acima, que a tiracolo trazia outras bandas em seu rastro, o que se apresentou como Movimento Grunge, passou longe de ser de fato, um movimento. A proliferação desta ideia de “movimento” para a cena que surgia foi criada nos bastidores da indústria, que desde a década de 50 vê o rock como grande fonte de lucro, tendo na juventude seu consumidor nato. Embasou-se muito mais na “rebeldia” em se vestir, do que propriamente numa proposta efetiva de transformação social. Não é por acaso que, no auge da coisa, uma bermuda custava cerca de 300 dólares em qualquer loja da cidade! Se existe uma definição que caiba ao tema, certamente está em “anti-movimento”. Longe de levantar bandeiras de destruição total do sistema capital ou mesmo cantar “peace and love” com batas coloridas e flores, o Rock de Seattle gritou nos microfones o vazio existencial de uma geração que não apontava direção alguma e decidia então expressar isso em letras recheadas de dúvidas e incertezas, drogas e álcool, paixões e decepções. As agonias de Kurt Cobain, mais do que qualquer outro personagem do seu tempo, apresentaram-se em suas letras, a violenta distância de qualquer perspectiva otimista. As drogas, que ocupavam o lugar de algo que faltava, passaram a ser a fuga do excesso de coisas que contornavam-no como mídia, escândalos com a esposa Courtney Love, agendas de shows, etc. Em 5 de abril de 1994, um tiro não tirou somente a sua vida, como sepultou o Grunge, condenado desde o nascimento.


Por Adriano C. Tardoque


Para saber mais:


Mundi – Dados de Seattle:
http://www.mundi.com.br/Wiki-Seattle-Washington-2392735.html

Editora Abril – Boletim Revista Bizz sobre a morte de Kurt Kobain em 1994:
http://www.abril.com.br/noticia/diversao/no_288563.shtml

Rock Online – Novo livro declara a “Morte do Grunge”:
http://territorio.terra.com.br/canais/rockonline/noticias/ultimas.asp?noticiaID=18980

Filmes:



Hype!, Filme documentário de Doug Pray, sobre o Grunge, lançado em 1996. Site oficial do diretor:
http://www.dougpray.com/



Kurt and Courtney. Filme documentário de Nick Broomfield, sobre a morte de Kurt Kobain, lançado em 1999. Matéria:
http://territorio.terra.com.br/canais/rockonline/materias/materia.asp?codArea=3&materiaID=104




Por Adriano Tardoque

quarta-feira, 28 de julho de 2010

INDICAÇÃO: CD "FROM THE PLANTATION TO THE PENITENTIARY" [2007] - WYNTON MARSALIS

Sem sombra de dúvida, Wynton Marsalis é um dos mais espetaculares músicos de Jazz de todos os tempos. Ainda que muitos o critiquem pela posição que atingiu no meio, chegando a "arbitrar" o que é ou não música de qualidade, seu potencial junto ao trompete o redime de algum  tipo de ressentimento que possa surgir. Melhor do que qualquer outro, Marsalis soube criar uma síntese qualitativa e perpetuadora do que trouxeram Louis Armstrong, Dizzy Gillespie, Miles Davies, e outros grandes nomes da história deste gênero musical. Com o álbum From The Plantation To The Penitentiary (lançado em 2007), desfere um golpe certeiro nos ouvidos dos mais otimistas de plantão, ao conceituar seu álbum no contexto "o negro saiu da plantação para a penitenciária". Um ano depois do lançamento do disco, os EUA escolheram como seu representante máximo um homem de pele escura que, além representar o negro no poder, representa processos de miscigenação como uma das principais características também da sociedade norte-americana (Obama tem pai queniano e mãe americana). O negro a que Marsalis se refere está superlotando prisões, sendo explorado nestas pelo mesmo sistema capital, o mesmo de outros tempos (prisões são linhas de produção  com mão-de-obra barata),  configurando a continuidade de algo que incrivelmente passa desapercebido ante a tantas "novidades" festivas. Sem querer me alongar, indico que ouçam a primeira música do álbum e tire você mesmo a conclusão sobre a qualidade musical, o nível do toque instrumental e o grau de dramaticidade da canção. E depois me diga se exagerei nos meus adjetivos. Vale observar que ainda não encontrei este álbum a venda no Brasil. Desta forma... Baixe, ouça e liberte seu coração das correntes.

Por Adriano Tardoque

Sobre Marsalis: http://www.wyntonmarsalis.org/

Livro: GUIA DO JAZZ, de Sérgio Karan, Editora L&PM, Porto Alegre, 1993. páginas 194-197

Ouça "From The Plantation To The Penitenriary" no Youtube:

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